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Dados e privacidade: por que isso é importante para todos, sem distinção

Vivemos em tempos difíceis. Atualmente, tem-se a impressão de que o mundo está de ponta cabeça, ao mesmo tempo que as pessoas no poder só têm os seus próprios interesses em mente. Parece-me que, atualmente, ganha quem gritar mais alto. Seja no Reino Unido, EUA, Rússia, Brasil ou Turquia - a objetividade parece diminuir, e a política se faz sentir mais radical.

Eu acho a versão flat do Galaxy S7 melhor do que o Galaxy S8 de bordas curvas.
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Ao mesmo tempo, nós, os usuários, confiamos a cada vez mais nas empresas para guardar algo sagrado: nossos dados pessoais.

"Ah não, lá vem mais um textão sobre privacidade” - já posso ouvir as reclamações. Diz-se que quem não deve, não teme, certo? E, no fim das contas, quem se importaria com os lugares por onde você passou ou as coisas que você comprou na Internet?

Sem dados, muitos modelos de negócio atuais não existiriam

Sendo bem sincero, eu sou um daqueles que são bastante descuidados com seus dados pessoais. Utilizo uma série de programas gratuitos: aplicativos de escritório à la Google Docs, e-mail, YouTube, ou um “personal trainer virtual” com o Runkeeper. Ao invés de pagarmos com dinheiro pelo uso desses programas, pagamos com nossos dados - por exemplo, os vídeos que assistimos online.

A partir daí, as nossas preferências e interesses podem ser enviados e analisados e, antes do próximo vídeo gratuito, veremos então o mais recente trailer de Star Trek, por exemplo. Ou o desenvolvedor de um aplicativo para corrida descobre com quais calçados seus usuários correm - e vende espaço publicitário de acordo com essa informação.

Até aí, tudo bem. Isso não machuca ninguém, e ainda pode ser entendido como uma prestação de serviço. Mas vamos olhar sob uma outra perspectiva: e se, ao invés de marketing, estivéssemos falando de um estado totalitário, com acesso a todos os tipos de dados?

E-mails e mensagens de mídia social ou vídeos, por exemplo, com certos pontos de vista políticos - na melhor das hipóteses, sendo contestados; na pior, monitorados a partir de protocolos que permitiriam denunciar, vigiar ou perseguir essas pessoas.

Opinion by Fabien Roehlinger
Eu sei que pago com meus dados pelo uso do Gmail. Mas não me importo.
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Evidentemente, este é um cenário de pesadelo que eu (até agora) rejeito como ficção científica ruim. Mesmo com o ‘Patriot Act’ dos EUA - uma lei que permite às autoridades públicas, com relativamente pouco esforço, acesso a uma miríade de dados armazenados - eu não poderia imaginar uma situação em que alguém (ou, no caso, eu) estaria na mira de instituições do Estado dessa maneira.

Apenas os Estados Unidos estão, em minha opinião, em uma posição capaz de acessar dados de forma abrangente (quase todas grandes empresas de Internet têm sedes nos EUA), para as analisar e, eventualmente, ligar os pontos conforme o caso. E, obviamente, eu não tenho nada a esconder nesse caso.

Primeiro vem a criação de perfis, depois vêm as atividades governamentais

O segundo maior varejista norte-americano depois do Walmart, a rede Target, envia regularmente cupons. Há algum tempo, em Minneapolis, um homem irritado adentrou em uma loja da rede e começou a esbravejar com o gerente sobre cupons erroneamente enviados à sua filha:  

"A minha filha encontrou estes cupons de desconto no correio. Ela ainda está no ensino médio, e vocês estão enviando a ela cupons de desconto para roupas de bebê e berços? Vocês querem incentivá-la a engravidar?"

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Mesmo fora do mundo digital, deixamos para trás grande quantidade de dados / © AndroidPIT

Depois de analisar os vales, o gerente da loja descobriu que os vouchers ligados à maternidade e roupas para grávidas estavam obviamente endereçados à filha. Ele pediu desculpas ao homem e entrou em contato com o pai em questão, alguns dias depois, para pedir perdão novamente. Para sua surpresa, o pai lhe pediu desculpas em seguida:

“Tive uma longa conversa com minha filha. E eu percebi que há coisas acontecendo em minha casa das quais eu não tinha ideia. Ela vai ter um bebê em Agosto. Minhas sinceras desculpas."

Isso foi em 2012. O que aconteceu exatamente? Está claro que não foi um erro da Target ao enviar os cupons para a jovem. Em vez disso, o fato é que os algoritmos da empresa funcionaram tão bem que conseguiram identificar uma futura mãe com base em seu comportamento de compras.

Tais algoritmos são baseados no conceito de "Big Data", que não está disponível apenas para o marketing. É lógico que as autoridades também contam com o poder dos dados - e o utilizam para intervir antes que algo aconteça. A polícia da Bavária, aqui na Alemanha, por exemplo, está conduzindo experimentos nesse campo - uma espécie de ‘policiamento preventivo’ - que em termos simples significa a identificação de um crime sem ter a ofensa concluída. Algo no melhor estilo Minority Report.

“Policiamento preventivo", com base em dados, já é uma realidade na polícia alemã

A princípio, isto não parece uma má ideia. Especialmente nos tempos difíceis em que vivemos atualmente, quando as pessoas anseiam por segurança acima de tudo. Mas e se os algoritmos errarem? Ou se alguém cair de repente na mira dos investigadores apenas por ter revelado um padrão semelhante ao de terroristas?

Imaginem: um jovem gosta de tomar sorvete em uma loja que, coincidentemente, é próxima de um ponto de encontro de suspeitos, embora ele não saiba de nada a respeito. Em dado momento, ele decide que precisa fazer mais esportes e decide mudar o seu estilo de movimento, criando uma academia em casa. Devido a reformas que precisa realizar, faz compras de materiais como ferragens, cal e outras coisas. Os algoritmos de inteligência processam esses dados, e a próxima tentativa de entrada desse rapaz nos EUA é rejeitada no controle da imigração.

Entenderam onde está o problema?

... E quem vigia os vigilantes?

Tal mal-entendido não poderia ser explicado tão facilmente, diga-se. Ainda assim, a quantidade de dados pessoais utilizados está em crescimento constante - e, ao mesmo tempo, o processamento de tais dados passa cada vez mais por sistemas baseados em redes neurais, utilizados para comandar o fluxo de informações.

As redes neurais artificiais operam em regras extremamente simples, mas o modo como os dados são analisados é bastante complexo. Baseando-se nisso, como explicar que você é uma vítima de processamento incorreto de dados de uma “caixa preta”, sendo que os mesmos que levaram você a ser incluído nesse processamento são desconhecidos ou não estão mais disponíveis?

Além disso, vale lembrar que nossos dados apenas estarão seguros desde que não sejam utilizados inadequadamente. Durante muito tempo, eu achava que isso nunca iria acontecer. Nesse sentido, o ‘Patriot Act’ foi, para mim, uma interferência brutal em nossas liberdades civis. Um governo com uma ferramenta poderosa, podendo utilizar todos os nossas informações de maneira arbitrária, me parecia completamente irreal.

O fato de que, até agora, nós tenhamos cedido nossa privacidade e dados de forma quase ingênua e isso pode ser, talvez, explicado pela confiança que temos na justiça e no estado de direito. A situação da França, por exemplo, é bastante delicada, com a ampliação do estado de emergência diante dos ataques terroristas, medida que, dentre outras coisas, facilita a análise de dados de dispositivos.

Como seria o poder sobre esses dados em um estado alinhado a uma ordem totalitária?  Como poderíamos ter certeza de que tal sistema não usaria essas informações também para, por exemplo, se livrar de dissidentes políticos? Podemos concordar que a atmosfera acalorada do momento pode até mesmo afetar as democracias do mundo ocidental?

Opinion by Fabien Roehlinger
Me preocupo com a questão dos dados e privacidade, mas continuo usando serviços como o Facebook, Google ou Pokémon de qualquer maneira.
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Sem querer doutrinar: o objetivo é esclarecer

Muitos artigos sobre essa questão de dados e privacidade me desagradam profundamente. Frequentemente o tom é pedante e me deixam com aquela sensação de “salve-se quem puder - Skynet está próximo!”. Teorias da conspiração, convenhamos, não costumam ser muito edificantes.

No entanto, meu objetivo aqui é auxiliar no esclarecimento sobre essas questões, bem como aumentar a consciência de que tudo o que fazemos hoje deixa pistas digitais, e isso poderia ser eventualmente usado contra nós -independentemente de termos feito alguma coisa. Ou não.

Nesse sentido:

“I’ll be back!”

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Entendi