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E agora, Huawei? As opções da empresa após ser forçada a se "divorciar" do Google
Opinião 6 min para ler 42 Comentários

E agora, Huawei? As opções da empresa após ser forçada a se "divorciar" do Google

A notícia caiu como uma bomba: devido a sanções impostas pelo governo dos EUA o Google suspendeu seu relacionamento com a Huawei, que imediatamente perde sua licença para uso do sistema operacional Android e de seus serviços e apps, como Maps, Play Store, Gmail, Assistente, Photos, YouTube e muitos mais.

É um golpe quase mortal na segunda maior fabricante de smartphones do planeta (atrás apenas da Samsung e à frente da Apple), que tem no sistema do Google a pedra fundamental de todos os seus produtos. Justo agora, quando ela começa a ganhar projeção no cenário internacional com aparelhos que estão sendo considerados entre os melhores do mercado.

Aparelhos da Huawei já lançados (como o P30 Lite e P30 Pro) não são afetados pela medida, mas nenhuma fabricante sobrevive em um mercado tão concorrido como o de smartphones sem um fluxo constante de novos modelos. E sem o Android, como eles poderão competir?

AndroidPIT huawei p30 lite hero
Aparelhos Huawei já lançados, como o P30 Lite, não são afetados pelas sanções dos EUA / © AndroidPIT

Há 10 anos a situação não seria tão crítica: havia toda uma variedade de plataformas e sistemas operacionais para escolher, entre eles o iOS, Android, Windows Mobile, Blackberry, Symbian, Web OS, etc. Mas hoje o mercado é um duopólio: de um lado o iOS, jóia da coroa da Apple, e do outro o Android. Não existe uma “terceira via”. 

Felizmente, para a Huawei, há algumas formas de escapar dessa “sinuca de bico”.

Criar um “fork” do Android

O Android é um sistema operacional Open Source, o que significa que qualquer um pode ter acesso ao seu código-fonte (até você, leitor!) e utilizá-lo em seus produtos sem precisar pagar um tostão.

O problema é que esta versão Open Source não contém vários dos componentes que identificamos como parte integral do que é Android, como o Google Maps, Play Store, o navegador Chrome, etc.

Nada impede a Huawei de criar uma derivação (“fork”, no jargão de tecnologia) do Android com base no código fonte do AOSP (Android Open Source Project) e usar este sistema em seus aparelhos. Ela apenas teria de substituir os componentes que faltam por serviços próprios. Praticamente o que a Amazon já faz com o Fire OS usado nos tablets Kindle Fire.

De certa forma a Huawei já faz isso. Lembre-se que o acesso ao Google e seus serviços é bloqueado na China. Ou seja, os smartphones que a empresa vende em sua terra natal já são “Google Free”, e boa parte deste caminho já foi percorrido. Algumas soluções específicas para o mercado chinês (como mapas) teriam de ser adaptadas para um mercado global, mas isso não é um grande problema para uma empresa do porte da Huawei.

app brain
AppBrain: uma loja alternativa com apps para Android / © AndroidPIT (captura de tela)

O maior problema aqui seria a loja de aplicativos: a Huawei teria de criar uma loja própria para atender a seus usuários e convencer os desenvolvedores a suportá-la. Isso poderia criar uma fragmentação ainda maior (como se já não bastasse) no mercado de apps para Android. E não está claro se as sanções permitiriam a um desenvolvedor norte-americano publicar seus apps numa loja operada pela Huawei. 

Se as sanções continuarem, acredito que este é o caminho mais provável. De fato, acho que é exatamente disto que a Huawei estava falando quando mencionou que tinha um “plano B” na manga caso sofresse sanções dos EUA.

Criar seu próprio sistema operacional

Você já ouviu falar no Tizen? É um sistema operacional baseado no Linux, desenvolvido pela Samsung e usado em alguns de seus produtos, entre eles os smartwatches Galaxy Gear, câmeras digitais e Smart TVs. Mas o Tizen foi criado para ser usado em smartphones, como um concorrente ao Android e iOS. De fato, a Samsung chegou a lançar na Rússia uma linha de smartphones chamada “Galaxy Z” rodando o Tizen. 

Nada impede a Huawei de fazer o mesmo. De fato, seria uma alternativa interessante considerando que, se as sanções continuarem, a empresa provavelmente perderá acesso também ao Windows. Um sistema operacional único baseado em Linux poderia rodar tanto nos smartphones quanto nos notebooks da Huawei, fornecendo um “ecossistema integrado” que seria mais atraente aos desenvolvedores.

AndroidPIT tizen on samsung devices
Criado para smartphones, hoje o Tizen é usado em wearables e Smart TVs / © AndroidPIT

Foi o que a Canonical tentou fazer com o Ubuntu Phone, e é o que a Purism está fazendo com o Librem 5, um smartphone com um sistema operacional projetado para respeitar a privacidade digital de seus usuários.

O problema aqui são, novamente, os apps. Se na alternativa anterior o desafio era encontrar uma forma de fazer o consumidor chegar até os milhares de apps Android já existentes, aqui o desafio é convencer os desenvolvedores a criar apps para uma nova plataforma.

Afinal de contas, você compraria um smartphone sem WhatsApp, Instagram, Facebook ou aquele jogo que todos os seus amigos jogam? Não, né? Foi isso que afundou sistemas como o Windows Phone.

Eu colocaria esta opção como “plausível, porém improvável”. Note que eu digo improvável, mas não impossível.

Negociar com os EUA

Não é só a Huawei que perde com as sanções impostas pelo governo dos EUA. A economia norte-americana também perde, e não é pouco dinheiro: são cerca de US$ 11 bilhões, segundo estimativas da CNN.

A decisão do governo dos EUA afeta o Google, a Microsoft, a Qualcomm, a Intel, a Broadcom, a Xilinx e muitas outras empresas de tecnologia que fornecem software ou componentes para a Huawei. Além disso, afeta também empresas de telecomunicações: a Huawei é uma das maiores fabricantes de equipamento de telecomunicação no planeta, e uma das pioneiras no desenvolvimento da tecnologia necessária para a implantação de redes 5G, que são vistas como um dos pilares da economia no século 21. 

A Huawei não é a primeira, e nem será a última, vítima nesta guerra.

Não é a primeira vez que o governo dos EUA “torpedeia” uma empresa chinesa. Em março de 2017 a ZTE sofreu sanções por exportar tecnologia controlada dos EUA para países como o Irã e Coréia do Norte. Como punição, foi colocada na mesma “lista negra” que a Huawei, e perdeu o acesso a fornecedores como a Qualcomm (processadores e modems) e Google (Android).

A empresa chegou a anunciar a suspensão de suas atividades, até chegar a um acordo com o Departamento de Comércio dos EUA para suspender as sanções. Embora a Huawei seja muito menos dependente de tecnologia norte-americana que a ZTE (ela produz seus próprios processadores, por exemplo), não duvido que neste exato momento representantes da empresa, do governo chinês e do governo norte-americano estejam tentando marcar “um café” para discutir uma forma de resolver a situação que seja aceitável para todas as partes.

Eu creio que esta é a alternativa mais plausível. E, de fato, não ficarei surpreso se muito em breve surgirem rumores e notícias neste sentido. A briga entre o governo dos EUA e a Huawei é uma pequena parte de uma disputa muito maior entre os EUA e a China pelo posto de maior potência no século 21. A Huawei não é a primeira, e nem será a última, vítima nesta guerra.

E você, qual estratégia acha que a Huawei irá adotar? Deixe sua opinião nos comentários abaixo.

Os comentários favoritos dos leitores

  • Rafael Rigues há 3 semanas

    Vinícius, não há nenhuma prova de que ela colete ou venda informações para o governo chinês. O GCHQ (equivalente inglês da CIA) fez recentemente uma análise de hardware da Huawei e não encontrou nada que pudesse fundamentar a acusação

42 Comentários

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Todas as mudanças foram salvas. Não há rascunhos salvos no seu aparelho.

  • Acabei de receber uma atualização (812Mb) no meu P30 Lite, atualização na câmera, sistema e Patches de Segurança.


  • Num é por nada não, mas não seria mais fácil para a Huawei pedir arrego e tirar todos as suas customizações em todos os seus dispositivos que redirecionam dados para servidores da China? A Huawei vai levar uma surra nessa briga, quem viver, verá.


  • Só queria que dessa briga toda saísse um SO da Huawei, nem que fosse somente para o mercado chinês. Seria muito interessante, já que ela já produz o próprio SoC, e com um sistema proprietário poderia otimizar o software para o hardware, tal qual o IOS.


  • Tô com meu balde de pipoca só acompanhando essa treta aí...


  • Não sei se é verdade mas parece que o governo dos EUA deu um prazo de 90 dias pra Huawei "regularizar" a situação deles e consequentemente remover a restrição imposta. Mais ou menos como a ZTE...
    Bom vi gente comentando em outros sites isso aí mas não vi a notícia em algum lugar ainda.


    • Não exatamente. O governo dos EUA deu 90 dias antes do início do boicote para que a Huawei possa finalizar seus contratos de suporte com empresas norte-americanas.


  • Pra quem acha que software aberto é o mesmo que software livre.


  • Vão ressuscitar o Windows Phone, só falta!


  • A turma do bem não está nem um pouco preocupada com a escravidão chinesa, desde que possa comprar seu novo top de linha a cada ano. A culpa, claro, é do malvado Trump, afinal a política chinesa é um amor.

    A própria matéria cita um exemplo MUITO curioso e que, ao ser ignorado, só revela a hipocrisia e seletividade dos "analistas políticos paz e amor":

    "De certa forma a Huawei já faz isso. Lembre-se que o acesso ao Google e seus serviços é bloqueado na China. Ou seja, os smartphones que a empresa vende em sua terra natal já são “Google Free”..."

    Ou seja, a empresa já sofre do problema desde sua fundação (e suas colegas, tb), muito antes do presidente americano impor condições e cortar as asinhas do ditador chinês.


  • Tadinha da huawei, é apenas uma coitada empresa que trabalha com o governo totalitário do país para mandar pra cadeia e campos de concentração quem pensa diferente do estado ....... Uma dica pra vc, china scoring system, estude isso e depois venha falar que não tem nada de errado com essa empresa....... E pela última vez, o tizen é um sistema desenvolvido pela linux Foundation a Samsung só a empresa que mais usa


  • Trump quer fazer de tudo para prejudicar o mercado chinês. Quem para pra ver o por trás dessas decisões sabem que isso envolve questões comerciais e políticas. Não é de hoje que o EUA está privando diversas coisas chinesas de entrar no país. Agora essa é mais uma delas. Isso que está acontecendo não é apenas ruim para uma marca, mas ruim para um mercado global, afetando diversos países. Nessas horas é que eu gostaria de ver as empresas dando os passos para se tornar independentes de sistema. Realmente, isso na atual condição é muito difícil, mas se isso acontecesse seria uma quebra no padrão que temos hoje e uma forma de prejudicar o mercado americano, que por querer ser independente de todos, não se importam em prejudicar outros mercados.


    • Só esqueceu de falar que a China já restringiu grandes empresas americanas de atuar dentro de seu território, a Google mesmo e proibida de ter seu serviços no país. Querendo ou não os Estados Unidos fizeram a mesma coisa agora. Não tem ninguém certo nessa história, essa briga é antiga. A China é o país que mais protege seu mercado interno, não vejo nada de anormal de outros quererem fazer também. Só não concordo de ficarem falando de espionagem, já que os EUA é o país que mais espiona no mundo.


      • Marcos, não é bem assim. A Google não foi proibida de operar na China, ela até já teve um escritório lá. Mas a legislação chinesa obriga as empresas de tecnologia a fornecer informações sobre seus usuários às autoridades, bem como respeitar o sistema de "filtro" e censura de informações estabelecido pelo governo. Por não concordar com esta política, o Google decidiu deixar o país. E como o serviço está em "desacordo" com as leis locais, o acesso é bloqueado. A mesma coisa acontece com os serviços do Facebook (FB, Messenger, Instagram, WhatsApp).


      • Não deixa de ser uma forma de restringir a operação de empresas estrangeiras dentro de seu território, não digo que é errado, só disse pelo fato de ser um jeito de proteger o mercado interno e até mesmo a soberania do país, visto que Google e Facebook, são as empresas mais "espiãs" do mundo. A única coisa que eu não entendo é essa comoção desmedida em cima de uma jogada dos Estados Unidos, que a própria Huawei já esperava de acontecer.


  • A alternativa são as outra mil marcas de aparelhos que existem, ou acham que alguém vai sair do sistema, tanto consumidores, empresas, ou operadores, para andar a embarcar em lojas alternativas com hardware alternativo (Kirin???)....? Acham que a Huawei tem uma legião de fãs tão forte assim? Estilo Nokia, que depressa desapareceram.


    • Paulo, as coisas não são tão simples assim. A Huawei é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo. Ao ser forçada a abandonar o Android o sistema perde uma fatia significativa do mercado global e, como um todo, fica mais fraco.


      • Mas um no SO no mercado não aumentaria a concorrência e consequentemente melhorias entre eles através da competitividade?
        E outra. O mercado mais forte de smartphones da Huawei não é na própria China onde o Google já é bloqueado?


      • Exato. Observe que o bloqueio do sistema google pela china, e demais arbitrariedades daquele governo ditador, não é problema. Ninguém nem os cita. E a questão para essa cegueira seletiva é sim política. A gente sabe bem quem a culpa PRECISA cair em algum político/país liberal/de direita.

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