Existem alternativas reais ao Android além do iOS? Sim, e elas estão aqui!

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Rafael Rigues

A notícia de que o Google rompeu relações com a Huawei após um embargo imposto pelo governo dos EUA sacudiu o mercado de tecnologia. A empresa chinesa já era a 2ª maior fabricante de smartphones no mundo, todos com Android, e com modelos recentes como a família P30 vinha consolidando sua posição entre os grandes como a Samsung e a Apple.

Sem o Android e os serviços do Google, como a Play Store, fica muito mais difícil para a Huawei desenvolver um smartphone atraente aos consumidores. Mais difícil, mas não impossível. Embora sejam poucas, existem no mercado alternativas ao Android que podem ser usadas como um plano B.

Entretanto, a história mostra que quem se atreve a desafiar o “gigante verde” não vive muito tempo. Conheça a seguir algumas alternativas modernas ao Android, e aprenda um pouco mais sobre o destino de quem tentou derrotá-lo no passado.

O que existe hoje?

Fire OS

O Fire OS, desenvolvido pela Amazon, não é “o” Android como o conhecemos, mas é muito similar. Ele é baseado no código fonte Open Source do Android (o AOSP), porém com os serviços do Google (loja de apps, backup, mapas e localização, mensagens, etc) substituídos por equivalentes da Amazon.

O Fire OS, usado no Fire TV, é um derivado do Android / © AndroidPIT por Stella Dauer

Inicialmente desenvolvido para os tablets Kindle Fire, o Fire OS chegou a ser usado em um smartphone, o Amazon Fire Phone, que durou pouco mais de um ano no mercado. Atualmente ainda é usado em tablets e no Fire TV, “dongle” da Amazon que dá a uma TV comum recursos de uma Smart TV

PureOS

Desenvolvido pela norte-americana Purism, o PureOS é uma distribuição Linux usada nos notebooks da empresa, a família Librem, e que também será usada no smartphone Librem 5, já em pré-venda.

Seu principal destaque é o respeito à privacidade digital do usuário: o sistema evita o uso de apps, produtos ou serviços que possam coletar informações sobre o usuário que possam ser usadas para construção de perfis de consumo e entrega de propaganda. Por isso, por exemplo, o navegador padrão é o Chromium (a versão Open Source do Chrome, desacoplada de serviços do Google), e o sistema de busca padrão é o DuckDuckGo.

O PureOS, da Purism, é baseado em Linux e respeita a privacidade digital do usuário / © Purism

Como é baseado em Linux, o PureOS vem com um “modo desktop” integrado. Basta conectar o Librem 5 a um monitor, teclado e mouse e você tem um sistema operacional completo, com os mesmos apps que você está acostumado a usar em um notebook ou desktop. Um recurso que pode se mostrar muito atraente para profissionais e o mercado corporativo.

KaiOS

O KaiOS é um descendente do Firefox OS (veja mais sobre ele abaixo), e como tal tem como alvo aparelhos de baixíssimo custo, como Feature Phones. A idéia é oferecer alguns recursos dos smartphones (como mapas, YouTube, WhatsApp, buscas no Google, etc) sem que para isso seja necessário um sistema operacional mais sofisticado, como o Android, e todo o hardware associado a ele (mais RAM, tela e bateria maiores, etc).

O Kai OS está se tornando muito popular na Índia, onde milhões de pessoas tem em seus telefones celulares a principal forma de comunicação, mas ao mesmo tempo não tem os recursos necessários para investir em um smartphone.

Descendente do Firefox OS, o KaiOS leva muitos dos apps e experiências dos smartphones para os Feature Phones / © KaiOS Tech

Para se ter uma idéia, lá um aparelho com o KaiOS, como o MTN Smart S, pode custar apenas US$ 17 (cerca de R$ 70). Mesmo um Android de entrada, como o Nokia 3.1, custa 10 vezes mais. Não é à toa que 23 milhões de aparelhos com o Kai OS foram vendidos na Índia só no primeiro trimestre de 2018, e que ele tenha rapidamente se tornado o segundo sistema operacional móvel mais popular no país.

Ubuntu Touch

O Ubuntu Touch foi anunciado em 2011 pela Canonical como uma versão “mobile” de sua popular distribuição Linux. Uma de suas principais promessas era a total convergência entre a computação mobile e desktop: com um cabo seria possível ligar o smartphone a um monitor, transformando-o em um computador pessoal completo.

Os planos eram ainda mais grandiosos, com a expectativa de que o sistema fosse usado em Smart TVs, Smart Watches, tablets, sistemas de entretenimento e muito mais. Dois aparelhos chegaram ao mercado, o smartphone BQ Aquaris E4.5 e o tablet BQ Aquaris M10.

O Ubuntu Touch chegou a ser usado em um smartphone e um tablet da espanhola BQ / © ANDROIDPIT

Entretanto a indústria não comprou a idéia, e a Canonical anunciou o fim do suporte ao projeto, devido ao desinteresse do mercado, em Abril de 2017. Mas como todo projeto Open Source, o Ubuntu Touch se recusa a morrer: atualmente o sistema é mantido por voluntários do projeto UBPorts.

Sailfish OS

O Sailfish OS nasceu das cinzas do Meego, sistema operacional baseado em Linux desenvolvido pela Nokia e usado em um smartphone, o Nokia N9. Com a aquisição da Nokia pela Microsoft o projeto Meego foi encerrado, mas sua equipe de desenvolvimento se recusou a “jogar a toalha” e fundou uma empresa, a Jolla, para continuar desenvolvendo o conceito.

O Sailfish OS, da finlandesa Jolla, é descendente direto do Meego, da Nokia / © ANDROIDPIT

A Jolla lançou um smartphone (o Jolla Smartphone) e um tablet (Jolla Tablet) com o sistema, antes de abandonar o mercado de hardware. Também há uma versão do sistema chamada Jolla X, que roda em dois aparelhos da Sony, o Xperia X e XA2. Hoje em dia a empresa foca em soluções para o mercado corporativo e governamental.

O que está por vir?

Fuchsia

O Fuchsia é o terceiro, e menos conhecido, sistema operacional desenvolvido pelo Google. Pouco se sabe sobre ele além do que pode ser inferido pelo código-fonte, que é mantido abertamente em repositórios Git.

O sistema operacional parece ser agnóstico em termos de hardware, e capaz de rodar em aparelhos que vão de smart devices como o Google Home a notebooks. Ao contrário do Android e ChromeOS, que são baseados no Linux, o Fuchsia é baseado em um kernel próprio, chamado Zircon. Uma interface gráfica rudimentar lembra um pouco o Material Design em versões recentes do Android e Chrome OS. 

Protótipo de uma interface para smartphones no Fuchsia, sistema experimental do Google / © Ars Technica

Durante o Google I/O 2019 Hiroshi Lockheimer, Vice-Presidente Sênior encarregado do Android, Chrome, Chrome OS e Google Play no Google, deu uma rara declaração sobre o projeto ao site “The Verge”:

“Estamos estudando uma nova abordagem em sistemas operacionais. E eu sei que há gente lá fora super animada dizendo ‘Oh, esse é o novo Android’ ou ‘Esse é o novo Chrome OS’. Mas o Fuchsia não é isso. O objetivo do Fuchsia é avançar o estado da arte em sistemas operacionais, e as coisas que aprendemos com o Fuchsia podem ser incorporadas em outros produtos”.

Fantasmas do passado

Windows Phone

A Microsoft bem que tentou, mas não conseguiu emplacar o Windows Phone como uma alternativa ao Android e iOS. O sistema operacional estreou em 2010, três anos depois do iOS e dois anos depois do Android, e desde o começo já encontrou rivais bem enraizados no mercado.

Ao contrário de sistemas anteriores, como o Windows Mobile, o Windows Phone era voltado ao consumidor final, e não ao usuário corporativo. Sua característica mais visível era a interface Metro, que também foi usada pela Microsoft na tela inicial do Windows 8, antes de perder força no Windows 10.

A Microsoft bem que tentou, mas o Windows Phone não sobreviveu ao avanço dos Android / © ANDROIDPIT

O Windows Phone sofreu com um efeito tostines que acabou levando à sua ruína. Poucos fabricantes adotaram o sistema, em parte devido aos requisitos de hardware impostos pela Microsoft, que encareciam os produtos. Sua principal apoiadora era a Nokia, que logo foi comprada pela Microsoft.

Com isso, as vendas foram poucas, o que resultou em uma base de usuários pequena (que nunca ultrapassou 1,9% do mercado global) e que não atraía os desenvolvedores. Por isso o sistema ficava atrás na disponibilidade de apps como o Instagram, WhatsApp e jogos, o que acabava desencorajando mais consumidores, resultando em um círculo vicioso: “Não tem apps porque vende pouco, vende pouco porque não tem apps”.

A Microsoft descontinuou o desenvolvimento do Windows Phone em Outubro de 2017, e encerrará o suporte em dezembro deste ano.  A empresa recomenda que os usuários (sobrou alguém?) migrem para o iOS ou Android.

webOS

Desenvolvido originalmente pela Palm, o WebOS foi criado como uma alternativa ao iOS e Android e apresentado ao mundo durante a CES de 2009, junto com o primeiro aparelho usando o sistema, o smartphone Palm Pre.

Você pode não saber, mas o Android deve um pouco de sua identidade a este sistema. Matias Duarte, Vice-Presidente de Design do Google, foi o responsável pelo desenvolvimento da interface gráfica do webOS e de suas linhas-guia para interação com o usuário. 

O HP Touchpad foi o único tablet com o webOS, originalmente desenvolvido pela Palm / © Wikipedia

Embora tecnicamente muito sofisticado, o webOS morreu de inanição. A Palm não tinha recursos para brigar com a Apple ou uma multidão de fabricantes de aparelhos Android, e após lançar alguns aparelhos (Pre, Pixi, Pre Plus, Pixi Plus, Pre 2) acabou sendo vendida para a HP em Abril de 2010.

A HP, por sua vez, chegou a lançar aparelhos com o sistema, como os smartphones Veer e Pre³ e o tablet TouchPad. Aliás, talvez caiba ao Pre³ o título de “produto com a menor vida útil na história”: foi lançado em 17 de Outubro de 2011 no Reino Unido, apenas 24 horas antes da HP anunciar que estava encerrando o desenvolvimento e comercialização de todos os produtos com o webOS.

O sistema operacional foi vendido para a LG, onde ganhou vida nova como base para as Smart TVs da empresa.

Tizen

O Tizen surgiu das cinzas de outros sistemas operacionais mais antigos que não tiveram o sucesso esperado, apesar de terem seus méritos. A plataforma deriva da união de projetos como o Maemo (Nokia), Moblin e MeeGo (ambos da Intel). Atualmente, o desenvolvimento do Tizen é liderado por funcionários da Intel e Samsung, embora o projeto continue a ser de código aberto e disponível para todos.

A Samsung chegou a lançar uma linha de smartphones, a Galaxy Z, baseada no Tizen e rodando uma versão da TouchWiz, a interface gráfica da empresa na época, também usada em aparelhos Android. Na época isto foi visto como um “Plano B” caso o relacionamento entre o Google e a Samsung se deteriorasse.

Hoje o Tizen é usado nas Smart TVs da Samsung / © AndroidPIT

Hoje em dia o Tizen, assim como o webOS, encontrou um novo lar. É usado nas Smart TVs da Samsung, e também em smartwatches da empresa como o Galaxy Gear S2 e Galaxy Gear Fit.

Blackberry 10

O Blackberry 10 foi a última cartada da Blackberry, que já dominou o mercado de smartphones, para se manter relevante depois de ser atropelada por dois furacões chamados iOS e Android. Tecnicamente sofisticado, o Blackberry 10 sofreu um destino similar ao do webOS: preso a smartphones de um fabricante com pouca participação no mercado, não conseguiu atrair usuários e desenvolvedores o bastante para garantir sua sobrevivência.

O estranho Blackberry Passport foi um dos aparelhos com o Blackberry 10 / © AndroidPIT by Irina Efremova

A Blackberry lançou 10 aparelhos com o Blackberry 10 antes de decidir abandonar a produção de hardware e licenciar a marca para a TCL. Hoje, smartphones com o nome “Blackberry” rodam o Android.

Firefox OS

Que tal um sistema operacional baseado em um dos navegadores mais populares do mundo? Não, não estamos falando do Chrome OS, mas sim do Firefox OS, lançado em 2013 pela Mozilla. A idéia era criar um sistema operacional totalmente Open Source, voltado a aparelhos de entrada em mercados emergentes, como a Índia e América Latina.

Um dos grandes destaques do sistema era o uso de Web Apps que rodavam sem precisar de instalação e apareciam entre os resultados de buscas, eliminando a necessidade de uma loja de aplicativos.

Criado para smartphones de baixo custo, o Firefox OS chegou a ser usado em aparelhos da LG / © ANDROIDPIT

A idéia sobrevive até hoje: visite m.instagram.com em um smartphone, por exemplo, e você encontrará um web app do Instagram que dá acesso à maioria dos recursos do serviço, incluindo a postagem de fotos, sem que você tenha que instalar o app em seu aparelho.

A Mozilla conseguiu um grande feito: trouxe o Firefox OS ao Brasil e a países latinos através de parcerias com grandes fabricantes, como LG e Alcatel. Hoje em dia, diga-se de passagem, nem o Google consegue emplacar o Android Oreo Go em países emergentes pela baixa adesão. O fim do desenvolvimento do Firefox OS se deu em maio de 2016, mas seu espírito ainda vive em descendentes como o KaiOS.

Symbian

Ah, o Symbian. Ele já foi o rei absoluto do mercado de smartphones, presente em aparelhos cobiçados como o Nokia N95 e Samsung Omnia HD. Em 2006, um ano antes do lançamento do iPhone, o sistema tinha 73% do mercado mundial de smartphones. Ainda assim, em um espaço de 5 anos sofreu queda livre e morreu ao atingir o solo em 2011.

O Symbian foi vítima de fragmentação e falta de direção. Era usado por várias empresas (entre elas a Sony, Samsung e Motorola), mas cada uma tinha uma interface própria, e muitas vezes elas eram incompatíveis entre si.

A interface do Symbian Belle FP2, uma das últimas versões do Symbian / © Nonius 9 / Wikimedia Commons (CC-BY-SA 3.0)

Com a chegada do iPhone e a popularização das telas sensíveis ao toque, a Nokia (de longe a empresa que mais contribuía e investia no projeto) teve dificuldade em adaptar o sistema, criado para uso com um teclado numérico, para os “novos tempos”.

Enquanto isso, múltiplos projetos internos para modernizar ou criar um sucessor para o Symbian drenaram recursos da empresa, e uma sucessão de aparelhos que prometiam “matar o iPhone” mas desapontavam com bugs ou baixo desempenho espantaram os consumidores.

A Nokia abandonou o Symbian em 2011, quando adotou o Windows Phone, muito depois de suas parceiras já terem adotado o Android. No mesmo ano o desenvolvimento e suporte ao Symbian foram terceirizados para a Accenture, e em 2014 a Nokia anunciou o fim de todos os esforços de desenvolvimento de software e manutenção do sistema.

Renascida, hoje a Nokia usa o Android, como quase todos os outros fabricantes.

E você, já usou um smartphone com alguns destes sistemas? Quais lembranças tem deles? Compartilhe sua experiência nos comentários.

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