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Você tem a Síndrome da Vibração Fantasma?

É assim toda noite. Estou deitado, pronto pra dormir, quando sinto o celular vibrando. Pego o celular que está embaixo do travesseiro para checar a notificação que acabou de chegar. E não é nada. Recoloco o celular sob o travesseiro e dali a alguns minutos, uma nova vibração. Olho novamente a tela do aparelho e zero notificações. Estou ficando louco?

Não. No máximo, ansioso. Talvez uma cena similar a essa que eu narrei já tenha acontecido com você, ao menos uma vez na vida. Comigo é bem frequente (toda noite, na verdade) e com uma parcela generosa dos usuários de smartphones também. Essa sensação de vibração é tão comum que já foi até estudada e tem nome: Síndrome da Vibração Fantasma.

Esta tal síndrome foi identificada originalmente nas décadas de 1980 e 1990, quando era bastante comum o uso de pagers. Porém, com a popularização sem precedentes dos smartphones e redes sociais, o fenômeno se acentuou ainda mais e atinge cerca de 90% dos usuários. Mas, por quê isso acontece? Será que nossos celulares e cérebros estão nos trollando? Nada disso. Tudo não passa de uma questão psicológica. Basta entendermos como funciona o nosso cérebro.

Nos primórdios da humanidade, da época em que ainda procurávamos o nosso lugar no mundo, a luta pela sobrevivência era constante. Qualquer vacilo e tchau! Você poderia ser vítima de um animal feroz vindo da floresta ou mesmo de tribos inimigas. Assim, nosso cérebro desenvolveu um sistema de prioridades e sensibilidade. O que ele considerar fundamental para nossa sobrevivência tem mais prioridade do que outros itens.

Logicamente, com o gigantesco avanço da raça humana e de suas tecnologias, deixamos de ficar alertas por medo de algum tigre dente-de-sabre surgir da escuridão, para ficarmos alertas aos avisos de nossos celulares. Imagine que você dependa dos seus aparelhos eletrônicos para sobreviver. É o meu caso.

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Ele é o culpado de tudo / © YouTube

Eu trabalho escrevendo sobre tecnologia e sobre celulares. É através do meu smartphone que me mantenho informado, assim terei assunto e conhecimento para escrever. É também por meio dele que mantenho contato com colegas de trabalho, checo e-mails importantes, pago contas e mato a saudade de minha noiva nos dias que não posso vê-la.

Então, se eu não estou com o smartphone por perto, eu posso perder uma notícia importante, uma mensagem de algum contato profissional ou mesmo oportunidades de novos empregos. Em outras palavras, minha sobrevivência está em jogo, pois, sem trabalho, não tenho dinheiro e, por conseguinte, não poderei me manter e pagar contas.

Embasamento científico

Pode parecer “viagem” mas quem diz isso não sou eu, são vários especialistas e estudiosos da psicologia humana, tais como Tom Stafford, autor do best seller Mind Hacks e professor de psicologia e ciências cognitivas do Departamento de Psicologia da Universidade de Sheffield, Reino Unido. Foi ele o autor da teoria da “prioridade e sensibilidade”.

Alex Blaszczynski, da Escola de Psicologia da Universidade de Sydney, por sua vez, defende que a Síndrome da Vibração Fantasma é causada pela sensibilidade dos nossos nervos aos mínimos sinais elétricos. Estamos tão habituados a usar o celular e a reagir aos seus estímulos sonoros e vibratórios que nossos nervos ficaram mais apurados a ponto de detectar variações mínimas. Uma hipótese não anula a outra.

O Dr. Robert Rosenberg, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Georgia, Atlanta, prefere ir pela hipótese do hábito. Ele explica:

Já estamos tão habituados a detectar a vibração e os alertas sonoros do celular que chegamos a senti-los mesmo quando eles não ocorrem

O Loop do Hábito

Eu, particularmente, acho interessante esta hipótese do hábito. Recentemente li o interessantíssimo livro O Poder do Hábito (The Power of Habit), de Charles Duhigg. Nele, o autor entrevista dezenas de pesquisadores e cientistas e também analisam vários casos curiosos de pessoas que conseguiram mudar drasticamente seus hábitos ruins para hábitos melhores, tais como ter uma rotina de alimentação saudável e exercícios, ao invés de comer besteira o dia inteiro e levar uma vida sedentária.

O autor então fala sobre o Loop do Hábito. É ele que compõem todo e qualquer hábito em nossa vida, desde o mais banal até o mais complexo. Ele é formado por três elementos: o gatilho, a rotina e a recompensa. O gatilho é o desencadeia o hábito e pode ser qualquer coisa, desde um cheiro, um objeto ou uma sensação. A rotina é a ação que tomamos e a recompensa é uma sensação de prazer que derivamos da rotina executada.

loop habito
Loop do hábito / © Vinnyfuruya

Assim, trazendo para o assunto da pauta, o gatilho seria a vibração ou o alerta sonoro do celular do celular. A rotina seria a nossa checagem da notificação e a recompensa é uma sensação que desfrutamos do que acabamos de ler, seja uma sensação de distração ao ler uma coisa engraçada no Facebook ou a sensação de se sentir informado ao ler uma nova notícia em nosso Feed RSS.

Porém, o loop do hábito não é nada sem os anseios. Se você não ansiar ou desejar aquilo fortemente, o loop do hábito não funciona. Assim, inconscientemente, passamos a ansiar por uma novidade em nosso smartphone. Passamos a esperar ansiosamente por uma notificação no Facebook, uma menção em algum comentário, por curtidas em nossas postagens e fotos no Instagram e, no meu caso, por notícias interessantes para que eu possa escrever pra vocês aqui no AndroidPIT.

Assim, a minha explicação para eu ouvir, toda fucking noite o meu celular vibrando, é esta. Já estou tão habituado a pegar o celular para ver as notificações quando ele vibra e apita que, inconscientemente, anseio tanto por isso que qualquer estímulo físico é interpretado por meu cérebro como o meu smartphone vibrando e, consequentemente, uma nova notícia, e-mail, curtida ou mensagem de WhatsApp. É uma verdadeira loteria.

Este fenômeno também é explicado, meio que indiretamente, no ótimo livro Conecte-se ao que Importa, do jornalista Pedro Burgos, que já foi editor-chefe do Gizmodo e manja dos paranauê das tecnologias e seus impactos em nossa sociedade. Também recomendo a leitura.

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Livros "O Poder do Hábito" e "Conecte-se ao que importa" / © AndroidPIT

Conclusão

A Síndrome da Vibração Fantasma não representa um perigo a quem a sente. Ela é praticamente inofensiva. Porém, ela pode ser um indício de um transtorno de ansiedade maior, que pode acabar por prejudicar sua vida profissional, amorosa e familiar. Portanto, se você sente o seu celular vibrando ou tocando mesmo sem ele estar, não se preocupe. É apenas uma reação natural do seu cérebro.

Mas, se os anseios e preocupações estiverem lhe tirando a paz e lhe prejudicando em diversas esferas da vida, procure ajuda médica apropriada, tal como um psicólogo e psiquiatra. E tente não ser tão dependente do celular. Se você der menos importância ao smartphone, com o tempo seu cérebro deixa de emitir esses alarmes falsos, pois a prioridade deles é baixa em sua mente.

Espero que você tenha curtido o artigo. Agora, quero saber quantos leitores do AndroidPIT sentem esta tal vibração fantasma. Você sabia que existia esse fenômeno ou achava que estava ficando louco?

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